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O Fiel Francês e a Alfa Romeo

por | fev 22, 2018 | Arquivo, Crônica, História | 0 Comentários

Antes que o automobilismo se tornasse um esporte de cifras astronômicas, contratos complicados e patrocínios exclusivos, até o final dos anos sessenta as fábricas de automóveis de esporte ou de corridas usavam a venda de seus carros como fonte de recursos para manter suas equipes oficiais e financiar o desenvolvimento de seus novos modelos.

Isso criava uma rede de equipes particulares e clientes ligados às fábricas, desde aquelas chamadas equipes “semi-oficiais” com estruturas completas até os mais simples pilotos amadores que simplesmente compravam um carro esportivo e se inscreviam nos rallyes, subidas de montanha ou provas de circuito com uma preparação que mal passava de um número colado na porta do carro.

Sim,  os amadores de um tempo em que não havia barras de proteção, equipamento de segurança etc e a equipe era um amigo com uma chave de rodas e uma caixa de ferramentas e/ou a esposa com uma cesta de sanduíches e refrigerantes.

Outros tempos….

O que se tornou famoso é que às vezes esses pilotos amadores, esses clientes particulares se tornavam tão ligados às fábricas que vez por outra acabavam sendo convidados para as equipes oficiais e participavam de uma prova de primeiro nível, fazendo dupla com um piloto profissional de alto gabarito ou até mesmo um piloto de fórmula 1.

Um dos exemplos mais pitorescos dos anos sessenta era o britânico David Piper.

Piper era um cliente da Ferrari e comprava os GTs e esporte protótipos de segunda mão da “scuderia”. Tinha uma verba da BP (British Petroleum) e pintava seus Ferraris no tom de verde do símbolo da BP, mas no mundo automobilístico a cor era ligada a ele e carinhosamente apelidada de “Piper Green”.

Os Ferraris verdes obtiveram algum sucesso, principalmente em provas de segundo nível e David Piper se tornou muito próximo da fábrica e do Comendador Ferrari.

Em 1969 a Ferrari estava em dificuldades financeiras, negociando o que viria a ser sua associação com a FIAT, mas a temporada estava afetada pela falta de verbas. Apenas um carro regular na F-1 com Chris Amon que era de fato um modelo 1968 “aggiornato” e, a principio, nenhum esporte-protótipo. Como havia uma categoria de protótipos de 3 litros, mesma cilindrada da F-1,  os engenheiros e mecânicos da Ferrari  em um esforço hercúleo e quase sem verbas, criaram um protótipo biposto a partir do carro de F-1 e com o mesmo V-12 “amansado” para as provas de longa duração. Esse raríssimo Ferrari, o 312 P, foi, por acaso, um dos mais belos protótipos Ferrari de todos os tempos.

Mas sem recursos para contratação de “superstars” nas provas de esporte-protótipos, a Ferrari, além de Amon, chama o lendário mexicano Pedro Rodriguez ( da equipe de F1 da BRM na época), que já tinha um histórico com a Ferrari e chama o “amador” britânico , seu cliente tradicional, David Piper. Tanto nos 1.000Kms de Spa como nas 24 hs de Le Mans uma das 312P “oficiais” da Scuderia aparece nas mãos da dupla Rodriguez-Piper. Embora Rodriguez fosse um piloto bem mais rápido e os rivais fossem grandes profissionais, a dupla consegue o 2º lugar na prova de SPA (a melhor classificação das 312 P no campeonato).

Na Alfa Romeo havia um paralelo famoso. Um piloto amador francês de rallyes tinha ficado célebre na França por correr e vencer com Alfa Romeos em um tempo que a Alfa Romeo não tinha equipe oficial.

Ele ficou conhecido como o “fiel da Alfa Romeo”.

A lembrar que desde a última aparição oficial da Alfa Corse em 1953 com as 6C 3.000 até a incorporação completa da Autodelta em junho de 1966 não houve participação oficial da fábrica Alfa Romeo nas competições.

Nesse hiato a Alfa se fez presente nas pistas e estradas em quase todas as categorias e em quase todos os países onde havia competição com pilotos e preparadores independentes. Entre estes últimos estavam os famosos preparadores italianos  Virgílio Conrero, Angelo Dagrada, Pietro Facetti, Almo Bosato, Karl Abarth e Enrico Nardi, só para citar os mais célebres.

Mas nada de participação oficial, apenas um apoio para os concessionários e equipes mais próximos.

Nascido em Digne-les-Bains (França) em 27/7/35, Jean Charles Rolland começou a participar dos rallies franceses ainda garoto ao lado de seu avô em 1952 com um Peugeot 203.

Mas a partir de 1959 ele adquire uma Giulietta Sprint Veloce (SV) e daí até sua morte ele seria visto quase que exclusivamente em Alfa Romeos e todas as suas inúmeras vitórias seriam sempre em Alfa Romeos.

A Giullieta Sprint Veloce marcou o “casamento” de Jean Rolland com a lendária marca milanesa.

Sucessivamente ele vai aparecer nas Giullietas Sprint (SV ou Sprint Veloce), SZ (Sprint Zagato), Giulias TZ I e TZ 2 (TZ para Tubolare Zagato) e nas Giulias GTA (GTA para Gran Turismo Alleggerito).

Foi nos rallys dos campeonatos francês e europeu que ele se consagraria, usualmente dupla com seu navegador Gabriel Augias, tornando célebre o duo “Rolland/Augias”.

Nesses rallyes de velocidade ele se defrontava com gente como Vic Elford (porsche) futuro piloto de F1 e protótipos e Paddy Hopkirk da equipe BMC (mini cooper) o lendário vencedor do Rally de Monte Carlo, sem contar com os grandes nomes da Alpine, da Lancia e da Renault que dominavam e dominariam os rallys europeus a partir dessa época, gente como Larousse, Darniche, Mauro Bianchi, Vinatier, Nicolas, Thérier, Hanrioud, Munari, etc.

Ou seja, de um lado equipes estruturadas com apoio oficial ou semi-oficial de fábrica e de outro lado o amador com sua Alfa.

Em 1959 com Giulietta Sprint Veloce vence a Ronde Cévenole e o Criterium des Cévennes sempre em dupla com seu navegador Gabriel Augias.

Com a Giulietta SZ vence em 1961 o Criterium Alpin e o Rally du Var, em 1962 o Criterium des Cévennes e em 1963 o Criterium Jean Behra, a Coupe des Alpes e o Rally du Var, sempre escoltado por Gabriel Augias.

Indissociavelmente ligado à Alfa Romeo e até a presente data o piloto que obteve mais vitórias consecutivas em rallyes oficiais pela marca ele passa a ser conhecido na França como o “campeão amador” e o “fiel da Alfa Romeo”.

Às vitórias nas classes de baixa cilindrada em que disputavam as Giuliettas, normalmente se acumulavam ótimas posições e às vezes até vitórias na classificação geral desses rallyes. Isso era ainda mais surpreendente pelo fato de Rolland ser um amador e por ser francês o que, em outras palavras, significava que ele não dispunha das versões mais competitivas dos grandes preparadores italianos.

Quem disse que as Alfas não são carros para rally? Na terra, no asfalto ou até atravessando cursos d’agua, Jean Rolland provou a valentia das Giulietas em qualquer terreno. (aqui com a SZ “coda tonda”).

O sucesso nas estradas levou ao sucesso nas pistas e ao contato com as equipes “semi oficiais” italianas.

Com a Giulia TZ (TZ1) Rolland vence em 1964 a Coupe des Alpes e o Criterium des Cévennes e com o mesmo carro em 1965 torna a vencer o Criterium des Cévennes.

E vai ser campeão francês em 1964 na categoria GT com Giulia TZ, vice campeão em 1965 na mesma categoria com Giulia TZ e campeão francês de 1966 na categoria Turismo Especial com Giulia GTA.

Le Mans 1964 – A Scuderia St Ambroeus organizou a aparição das TZ-1  em Le Mans, sendo a nº 40  para Jean Rolland/Fernand Masoero.

Em Le Mans 64 ele participaria com a Giulia TZ 1 da Scuderia St. Ambroeus em dupla com o compatriota Fernand Masoero. A St. Ambroeus de Milão era uma das escuderias da FISA (Federação Italiana das Scuderias Automobilísticas) da qual outra associada famosa era a Scuderia Sereníssima. Entre os fundadores da St. Ambroeus estavam Eugenio Dragoni (futuro chefe de equipe da Ferrari) e o próprio Elio Zagato (da Zagato).

Dessa vez a dupla Rolland/Masoero não terminou a prova.

Le Mans 1965 – A TZ-2 de Jean Rolland/Roberto Businello que não terminou a prova.

Em 65 pela já Autodelta (antes da incorporação pela Alfa), Jean Rolland participou das 24 hs de Le Mans com a Giulia TZ II em dupla com Roberto Businello. Mais uma vez não terminou, mas foi a Alfa mais rápida nos treinos.

A Autodelta fundada em Udine em 1963, era denominada inicialmente  Auto Delta SNC(“Auto” “Delta” em separado e SNC para società in nome collettivo). A empresa  assume a produção das TZ 1 com chassis e carrocerias Zagato que são logo fornecidas às escuderias St Ambroeus e Jolly Club (Itália) no final daquele ano de 1963. A TZ 2 é apresentada em 64 em Turim.

No começo de 65 a empresa passa a se denominar em Autodelta SPA (SPA para società per azioni ou sociedade por ações) e passa a ter participação da Alfa Romeo.

Três fatores mudam completamente a vida esportiva da Alfa Romeo em 1966:

• A Alfa volta oficialmente às pistas com a incorporação completa da Autodelta;

• A GTA está plenamente operacional para disputar os campeonatos completos ao redor do mundo e a Alfa tem definitivamente a arma perfeita para os campeonatos de turismo;

• O projeto 105.33 finalmente deslancha em sua plenitude visando as competições de esporte protótipos em uma evolução de carros e motores que vai levar a Alfa de volta à F-1;

Ainda com a TZ1, Jean Rolland vence em 1966 Ronde Cévenole e o Criterium Jean Behra em dupla com Gabriel “Gaby” Augias.

No mesmo ano (1966), já ao volante da nova GTA, Rolland vence o Rally du Mistral (essa única vez com Jean Baraton como navegador), a Coupe des Alpes, o Criterium Alpin e o famoso Tour de Corse (todos com “Gaby” Augias).

Em 1967, ano de maior dedicação às pistas do que aos Rallyes, vence mais uma vez a prova de sua especialidade a Ronde Cévenole em dupla com Jean Claude Gamet.

Não por acaso era também  apelidado na França de “Roi des Cévennes” (rei dessa região que dá nome a uma cadeia montanhosa no maciço central francês).

1967 seria o auge da carreira de Jean Rolland  Em 1967 com GTA ele vence as 6hs de Nurburgring ao lado do famoso piloto belga Lucien Bianchi.

A GTA seria a arma definitiva dos alfistas nas pistas do mundo todo. Jean Rolland também participou desse sucesso.

Após muita especulação e testes “secretos” que já estavam na mira da imprensa italiana, em 6 março de 67, por fim, a P-33 é oficialmente apresentada à imprensa.

Destinada ao mundial de protótipos na categoria 2 litros, ela nascera para se defrontar com os Porsches 910 e as Dinos 206. Paralelamente iria encontrar os mesmos rivais no disputadíssimo campeonato europeu de montanha.

Balocco (6/3/67) apresentação oficial da P-33 com sua famosa tomada de ar carinhosamente apelidada de “periscópio”.

Embora a P-33 já tivesse estreado em subidas de montanha e feito sua estréia no mundial de marcas nas 12hs de Sebring/USA (1 de abril de 1967), chega a hora da primeira grande aparição européia, na sessão de testes em para as 24 hs de Le Mans (8 e 9 de abril de 1967).

Essa sessão de testes é lendária não só porque ali se definem os favoritos da prova, como também pelo fato de que as fábricas levavam versões especiais e completamente diferentes de seus protótipos. Nos anos 60 eram as versões de “cauda longa” para ganhar mais velocidade na enorme reta de Le Mans e cortar alguns segundos do tempo de volta.

A Alfa leva sua equipe completa, inclusive algumas versões de cauda longa para serem testadas na P-33.

Sendo o teste na França, a Autodelta decide fazer a cortesia com o país vizinho e sua imprensa e chamar um piloto local para integrar a equipe oficial no teste se juntando aos pilotos italianos convocados.

Possivelmente eles formariam a equipe oficial para a corrida.

Sabiamente a Autodelta “despreza” os nomes de valorosos profissionais franceses e escolhe o amador, o fiel da Alfa Romeo, Jean Rolland, para participar dos treinos com a equipe oficial.

Finalmente reconhecido por seus muitos anos de dedicação exclusiva à marca, Jean Rolland se apresenta com a P-33 para a alegria do publico e regozijo da imprensa francesa.

Treino de Le Mans (8 e 9 /4/67)  recompensa para Jean  Rolland, finalmente ao volante de uma Alfa oficial de fábrica.

Em 14 de maio de 1967 a Alfa volta oficialmente à Targa Florio, palco de tantas conquistas no passado.

Com quatro P33 inscritas, a mais rápida nos treinos a mais rápida é a de Andrea de Adamich / Jean Rolland.

Durante a prova além de enfrentar os protótipos de maior cilindrada  (Ferrari P4, P3/4, Chaparral, Ford GT 40), a maior rival na categoria seria poderosa equipe Porsche, com nada menos que oito Porsches 910 oficiais, alguns de 2 litros outros 2,2 e as Ferrari Dino 206 .

Heroicamente Rolland e De Adamich levam a pequena Alfa até a segunda colocação na classificação geral, mas abandonam antes do final com a quebra da suspensão dianteira.

Targa Florio (14/5/67) Jean Rolland não tem tempo para admirar as flores do campo siciliano, ele está galgando posições para levar a P-33 ao segundo lugar na geral antes do abandono.

A Alfa desiste de participar de Le Mans naquele ano, mas os bons resultados levam a Altodelta a emprestar uma P-33 para a pequena equipe Sofar, braço esportivo da Alfa France, dirigida por François Landon, tendo em vista a participação de Jean Rolland nas mais famosas provas de subida de montanha da França e alguns eventos de circuito.

Com a P-33 Jean Rolland vence sua categoria e a classificação geral da subida de montanha de Chamrousse em 28 de julho de 1967 (o melhor tempo vai para o Matra F 2 de Johnny Servoz Gavin, pois os monopostos eram admitidos nesses eventos em condição “hors-concours”).

A subida de montanha de Chamrousse (28/7/67)  marcou a última vitória de Jean Rolland.

Em agosto  Jean Rolland fica em terceiro na subida de Mont Dore  e quarto na geral da prova cujo melhor tempo (também hors concours) seria de Jean Pierre Beltoise com Matra F-2.

A famosa subida de montanha de Mont Dore (agosto de 1967) foi a última largada  do campeão francês.

Visando os 1.000 kms de Paris em outubro, que era a mais importante corrida francesa para esporte-protótipos após as 24 hs de Le Mans, a Sofar marca uma sessão de testes no autódromo em que seria realizada a prova, o famoso circuito de Linas-Montlhery nas imediações de Paris.

Em 17 de setembro de 1967, o protótipo P-33 apresenta problemas de superaquecimento nos freios. O carro é embarcado, mas desce do caminhão a pedido de Rolland que sai novamente para mais algumas voltas.

Jean Rolland não retorna.

Aos 32 anos desaparece o simpático piloto amador, o campeão de rallyes, ele – Jean Rolland – o lendário “fiel da Alfa Romeo”.